
Congresso impõem derrota de Lula ao rejeitar Jorge Messias para a vaga do STF.
Ontem foi um dia histórico na política brasileira recente — talvez um dos mais marcantes dos últimos 132 anos. Um nome indicado pelo Presidente da República para uma vaga no STF foi barrado pelo Senado.
Na minha avaliação, esse resultado não aconteceu apenas pelo trabalho da direita em torno do tema, embora tenham sido significativos os esforços de parlamentares conservadores e da mobilização popular nas redes sociais, que alertaram para posições abortistas e para uma tendência persecutória contra opositores do “cristão” Jorge Messias.
Na prática, a direita soube aproveitar muito bem o desgaste entre Lula e Alcolumbre. O atrito teria começado quando Lula anunciou o nome de Messias sem consultar o super poderoso do Congresso, que preferia outro nome: Rodrigo Pacheco.
Da indicação até a sabatina foi um processo lento, em “banho-maria”, enquanto se buscava segurança para aprovação. Afinal, uma rejeição representaria enorme desgaste para o governo Lula, ainda mais em ano eleitoral. Mesmo com fortes articulações, liberação de R$ 12 bilhões em emendas e negociações de bastidores, Messias não foi aprovado. O governo estimava 48 votos — acima dos 41 necessários —, mas o placar final ficou em apenas 34.
Para o brasileiro médio, cansado tanto de Alcolumbre quanto de Lula, resta apenas assistir à disputa entre grupos de poder e torcer para a queda de ambos.
O problema estrutural do STF
Há também uma reflexão mais profunda. Particularmente, considero que, para ocupar uma cadeira no STF, o indicado deveria possuir carreira consolidada na magistratura, anos de experiência e trajetória sem máculas relevantes.
Como alguém que jamais atuou como juiz pode revisar decisões de magistrados concursados, experientes e tecnicamente preparados? Isso revela uma distorção institucional.
Hoje, a composição da Corte é majoritariamente política, com poucos nomes oriundos da magistratura de carreira. Em alguns casos, pesam ainda controvérsias incompatíveis com a grandeza do cargo. O sistema acaba funcionando como promoção por proximidade, amizade ou conveniência política, pulando etapas essenciais. Isso ficou bem claro no pronunciamento da senadora Soraia Tronick
O jogo de forças nos bastidores
No caso específico, tudo indica que a indicação de Messias era uma promessa de Lula, que foi cumprida, ainda que contrariando interesses de antigos aliados, como Alcolumbre. Talvez o presidente tenha subestimado a resistência. Ou talvez a rejeição no Senado tenha servido como forma elegante de se desobrigar da promessa, transferindo ao Congresso o ônus da derrota.
Davi Alcolumbre, por sua vez, é conhecido por demonstrar força política e por impor sua vontade quando necessário. Nesse episódio, mostrou novamente capacidade de articulação e controle.
Mas a política ensina que vitórias momentâneas nem sempre garantem estabilidade futura. O mesmo poder que se exibe hoje pode ser contestado amanhã.
O cálculo eleitoral
Durante o período de espera para a sabatina, surgiu a narrativa de que Messias poderia integrar uma ala mais técnica e menos ideológica do STF, aproximando-se de ministros como André Mendonça e equilibrando forças internas da Corte.
Esse argumento convenceu alguns setores, mas perdeu força ao longo do processo. A votação apertada na CCJ já sinalizava fragilidade, e o plenário confirmou isso.
Outro fator relevante parece ter sido o ambiente eleitoral. Com pesquisas apontando mudanças no cenário político para 2026, parte do Senado pode ter recalculado interesses. Parlamentares experientes costumam se reposicionar quando percebem alterações no vento político.
O que fica desse episódio
No fim, a rejeição de Messias parece ter sido resultado da soma de diversos fatores como desgaste entre Executivo e Congresso;, insatisfação de grupos políticos; pressão popular; disputa interna no Senado; cálculos eleitorais futuros e conflitos dentro do próprio sistema.
A direita aproveitou as fissuras da esquerda. O centrão agiu conforme sua tradição pragmática e interesseira. E o governo saiu enfraquecido.
Para muitos brasileiros, o essencial era simples: Messias não entrou.
Para outros, o episódio foi um milagre político. Afinal, quando tantas forças distintas convergem para um mesmo resultado improvável, muitos enxergam nisso algo maior do que mera articulação humana.
Resta saber se este foi apenas um fato isolado ou o início de mudanças mais profundas no equilíbrio entre os Poderes no Brasil.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia

