
O Amapá não caiu para a França. Caiu para Brasília. Flávio Dino ignora a vontade de 85% dos eleitores da capital
Quando o que importa é quem, e não o que, o próprio povo se entrega a uma ditadura sem tréguas. É assim que estamos vivendo o ano de 2026. Eu poderia me referir ao contexto nacional, mas me limitarei a contar uma história real da cidade onde moro: Macapá, capital do Amapá, estado do poderoso Davi Alcolumbre e de outras figuras caricatas, como o líder do governo Lula no Senado, Randolfe Rodrigues.
Talvez você pense: “O que importa para mim o que acontece em Macapá?”. Eu lhe recomendo que comece a se importar, pois não é à toa que, ao longo de décadas, os piores políticos protagonizaram aqui uma história de atraso e miséria para o povo. Este é um solo riquíssimo. Tão rico que Fernando Henrique Cardoso bloqueou, sob a justificativa de preservação ambiental, a maior reserva florestal do mundo: o Parque Nacional do Tumucumaque. Há espaços intocáveis — pelo menos para nós, que aqui moramos. Temos a tabela periódica debaixo dos nossos pés, mas mantemos mesas vazias. E esse parece ser exatamente o plano deles.
Na verdade, sequer se importam se desistirmos de viver aqui, porque, assim, não haverá resistência e a tomada dessas riquezas será ainda mais fácil. Hoje, 15 de maio, é Dia de Cabralzinho, feriado estadual. A história conta que ele foi o responsável por esta imensidão de terra continuar sendo chamada de Brasil, pois por muito pouco ela não se tornou território francês. Cabralzinho lutou para que o Amapá pertencesse ao Brasil, e talvez jamais tenha imaginado o quanto isso significaria em riquezas minerais, biodiversidade e tantas outras potencialidades fundamentais para o desenvolvimento de qualquer nação.
Só a Margem Equatorial é estimada como equivalente a “três Dubais”, tanto em quantidade quanto em qualidade do petróleo a ser extraído. Aqui existe um Brasil virgem a ser explorado; um lugar que deveria proporcionar ao seu povo uma vida tão abastada quanto o seu solo, suas águas e suas profundezas. Temos ouro dourado e vários tipos de ouro negro, que vão do açaí cotidiano ao petróleo prestes a jorrar das profundezas do mar. Se isso não importa para você que não mora aqui, deveria importar. E, se não importa a quem mora aqui, isso representa um completo desprezo à memória de Cabralzinho e uma negligência que pode se tornar imperdoável.
Mas agora quero discorrer sobre o lado sombrio que ronda nossa história. Apesar de ser Brasil, aqui muita coisa chega atrasada — menos a ditadura. Esta chegou primeiro. Vieram as perseguições e a convivência forçada com quem se comporta não apenas como dono da terra, mas também das pessoas e de seus destinos. É aqui que vivemos um completo atropelo da vontade popular, um pesadelo real que se prolonga sem data para acabar.
A capital do Amapá passou a ser governada, em 2021, pelo Dr. Furlan. Ele venceu de maneira surpreendente o irmão de Alcolumbre. De lá para cá, não importa quantos milhões em emendas tenham chegado: somente a capital se desenvolveu — não apenas graças aos recursos, vindos dos poucos aliados do Dr. Furlan, mas principalmente ao trabalho árduo e comprometido de um gestor que decidiu fazer a diferença. Com essa postura, Dr. Furlan foi reeleito em 2024 com 85% dos votos válidos e se tornou o maior líder popular da história do Amapá. A partir daí, passou a representar uma ameaça ao grupo que, durante anos, administrou e fomentou a miséria como instrumento de perpetuação no poder.
Em março de 2026, ele e seu vice-prefeito foram afastados por meio de uma decisão monocrática do ministro Flávio Dino. Não sabemos quem encostou no balcão em que se transformou a Suprema Corte para pedir essa encomenda. Temos apenas nossas desconfianças. Mas o mais grave foi perceber a ausência de razões proporcionais para uma decisão tão drástica, capaz de tomar o poder e, na prática, anular eleições, silenciando a vontade de 85% dos eleitores macaenses. Se isso não for imposição de uma ditadura, não sei mais o que é.
Nem quero me aprofundar sobre quem assumiu a cadeira da prefeitura. Trata-se de um aliado do governador Clécio e do senador Davi. Alguém envolvido em episódios públicos extremamente questionáveis, mas isso nem sequer é o mais grave. Há fatos e denúncias que, em qualquer ambiente minimamente sério, já teriam provocado consequências severas. Ainda assim, seguem todos ilesos.
Eu poderia falar sobre as demissões em massa, sobre a falta de coleta de lixo, sobre o abandono das praças, os graves problemas nas escolas e UBSs, as inúmeras denúncias de usuários e servidores, as decisões populistas e inconsequentes, os contratos suspeitos e a completa falta de decoro. Mas quero chamar atenção para o que aconteceu — e não para quem ocupa a cadeira. Independentemente de quem assumiu, o mais importante é debater como foi possível que uma pessoa chegasse à gestão de uma capital por meio de um processo que significou a completa violação da soberania popular.
Mesmo que o prefeito interino fosse perfeito, melhorasse a vida das pessoas e mantivesse a qualidade da gestão iniciada e consolidada pelo Dr. Furlan, ainda assim o que aconteceu continuaria sendo gravíssimo. Uma decisão revestida de aparência de legalidade, mas sem fundamentos jurídicos sólidos, conduzida de forma visivelmente parcial e carregada de conotações políticas, jogou no lixo o voto de mais de 200 mil eleitores. Isso é grave demais. Imagine: de cada 10 eleitores de Macapá, quase 9 escolheram Dr. Furlan, sua forma de governar e sua equipe. E, há mais de 70 dias, essa população vem sendo desrespeitada, humilhada e obrigada a tolerar uma gestão ilegítima.
Pior do que os prejuízos causados a grupos políticos ou interesses específicos é o dano causado à esperança coletiva. O que se vê no semblante da população é o descrédito, a sensação de impotência, a desesperança de que o voto ainda tenha algum valor. E é justamente por isso que a ditadura chegou mais rápido aqui: porque quando a população perde a esperança, a democracia já escapou por entre os dedos.
Estamos em ano eleitoral e prestes a escolher quem governará o Amapá pelos próximos quatro anos. Dr. Furlan lidera todas as pesquisas com médias entre 65% e 70% das intenções de voto. Clécio, atual governador, não ultrapassa os 30%. No voto, não vence. Mas existe uma preocupação legítima de que tentem vencer de outra maneira, tomando a eleição, assim como Dino tomou uma prefeitura um ano e dois meses depois do pleito encerrado.
O fato é que cada dia em que essa situação permanece não provoca apenas prejuízos administrativos para a cidade e para quem nela vive. Provoca algo ainda pior: destrói o princípio mais importante da democracia, que é o respeito à vontade popular.
No Dia de Cabralzinho, espero que homens e mulheres se levantem e lutem, porque hoje o inimigo não é externo. O inimigo é interno. Está nos tribunais, é pago para guardar e fazer valer a lei, mas a quebra reiteradamente. Nosso maior adversário à soberania popular é justamente quem deveria protegê-la.
Os inimigos do Brasil estão dentro do próprio Brasil. E o Amapá precisa de novos heróis para sair dessa batalha vencedor, com seus direitos devolvidos e sua vontade respeitada. Viva Cabralzinho, que fez do Amapá Brasil. E viva aqueles que não se dobram na luta para salvar o Amapá das garras da ditadura imposta por Brasília.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
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