
Capela histórica da Fortaleza de São José é descaracterizada e católicos cobram promessa de restauração do Governo do Amapá.
Fiéis afirmam que espaço religioso perdeu características originais após reforma e cobram cumprimento da promessa de que a nova configuração seria provisória.
A transformação da histórica capela localizada no interior da Fortaleza de São José de Macapá voltou a provocar manifestações entre católicos e pessoas ligadas à preservação do patrimônio histórico do Amapá.
A reclamação é de que o espaço, tradicionalmente utilizado para orações e celebrações religiosas, teria sido completamente descaracterizado durante a recente intervenção realizada na Fortaleza.
A reivindicação foi encaminhada ao portal pela página Amapá Católico, que afirma representar uma mobilização de fiéis interessados na preservação da identidade histórica e religiosa do local. Segundo a denúncia, o ambiente que anteriormente possuía características próprias de uma capela teve sua configuração modificada e passou a ser apresentado pela administração como um espaço de uso múltiplo.
Entre os elementos retirados estão o altar de madeira, bancos e outros componentes que, segundo os denunciantes, conferiam ao ambiente sua característica religiosa. A mudança já havia provocado repercussão quando a segunda fase da reforma da Fortaleza foi apresentada ao público.
Na ocasião, segundo os denunciantes, a própria gestão teria divulgado a transformação da capela em uma "sala multiuso".Após a repercussão negativa, a secretária de Estado da Cultura, Clicia de Micelli, teria explicado, em vídeo publicado nos canais oficiais do Museu Fortaleza, que aquela configuração seria provisória e que uma nova etapa da intervenção ainda seria realizada.
A justificativa apresentada, de acordo com os católicos, incluía a restauração do mobiliário retirado. Dois meses depois, promessa ainda não teria sido cumprida. É justamente esse ponto que voltou a provocar a mobilização dos fiéis. De acordo com a denúncia recebida pela reportagem, já teriam se passado aproximadamente dois meses desde a promessa de que o espaço receberia uma nova intervenção, mas a capela permaneceria com a mesma configuração.
Os denunciantes afirmam ainda que o antigo altar de madeira continuaria aguardando restauração, sem que, segundo eles, fosse possível identificar avanços concretos no procedimento."Queremos pressioná-los para tentar ainda uma solução antes do dia 4 de outubro", diz um representante da página Amapá Católico.
Para os católicos, a preocupação é que a mudança deixe de ser provisória e se consolide como a nova configuração definitiva do espaço. Missas e orações também foram interrompidas. Outro ponto levantado pelos denunciantes diz respeito ao uso religioso da capela. Segundo a página Amapá Católico, em outubro do ano passado foram realizadas duas missas consideradas históricas no interior da Fortaleza.
A comunidade também teria mantido encontros mensais para a oração do Rosário no local, que também abrange outros grupos com a mesma finalidade. Em março deste ano, entretanto, a página afirma ter solicitado novamente autorização para realizar uma missa na capela, mas o pedido teria sido negado sob a justificativa de que o espaço estaria passando por obras.
Os fiéis questionam a situação porque, na avaliação deles, a capela foi construída historicamente com finalidade religiosa e deveria continuar podendo ser utilizada para orações e celebrações católicas. "Agora com esta profanação feita, não podemos nem rezar, tampouco ter a possibilidade de ter missas no local", afirma o administrador da página católica.
Retirada do mobiliário e mudança de função
A denúncia também questiona a justificativa relacionada ao mobiliário existente na capela. Segundo os católicos, a intervenção teria sido autorizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), sob o argumento de que os móveis retirados seriam réplicas e não estariam individualmente tombados.
Os denunciantes, entretanto, sustentam que a discussão não deveria se limitar ao tombamento individual das peças, mas considerar também o conjunto arquitetônico, histórico e simbólico da capela.
Na avaliação apresentada à reportagem, a retirada do altar e de outros elementos teria alterado não apenas a aparência, mas também o sentido atribuído ao ambiente.Para os reclamantes, a presença de elementos como altar e bancos, é justamente o que permite identificar historicamente aquele espaço como uma capela.
IPHAN e Ministério Público são citados na denúncia
A reclamação também levanta questionamentos sobre a atuação dos órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio.Segundo o relato encaminhado à reportagem, a intervenção teria recebido autorização do IPHAN.
Os denunciantes questionam se a mudança na configuração e na finalidade do ambiente seria compatível com as diretrizes de preservação de um patrimônio histórico. O Ministério Público também teria sido acionado para analisar a situação.
De acordo com os reclamantes, porém, até o momento não teria havido uma medida capaz de reverter a alteração realizada no espaço.A reportagem não encontrou, até o fechamento deste texto, informação pública que permita concluir que os órgãos competentes tenham considerado definitivamente encerrada a possibilidade de restauração da configuração anterior da capela.
A comunidade quer preservação da memória religiosa
Para os católicos que levantaram a reclamação, a questão vai além da realização de missas. Eles defendem que a capela representa parte da história da formação de Macapá e da presença do catolicismo na construção da identidade cultural do Amapá. A reivindicação é para que o espaço volte a apresentar características compatíveis com sua finalidade histórica e religiosa e que o mobiliário seja restaurado, conforme teria sido anunciado pela gestão.
Os denunciantes também pedem que a discussão seja acompanhada pela sociedade e pelos órgãos de defesa do patrimônio histórico. A principal cobrança, neste momento, é pelo cumprimento da promessa de que a atual configuração seria apenas provisória.
O outro lado
A reportagem deixa aberto o espaço para manifestação do Governo do Amapá, da Secretaria de Estado da Cultura, da administração da Fortaleza de São José, do IPHAN e do Ministério Público sobre as intervenções realizadas na capela, o projeto de restauração do mobiliário, a previsão para conclusão da obra e as regras para utilização religiosa do espaço. Caso os órgãos apresentem esclarecimentos, a matéria poderá ser atualizada.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
