
O vexame do "comedoro" e os R$ 10 milhões de reais para escola de samba no Rio. O Amapá merece virar esta página.
A situação do Amapá está tão esdrúxula que daria assunto para um livro. Mas, como não temos tempo nem espaço para isso, acabamos fazendo um "dois em um" para não deixar de fora nada que o leitor precisa saber e, especialmente, refletir, opinar e decidir.
O Amapá virou motivo de chacota diante de um vídeo em que o senador Randolfe aparece na inauguração de um “comedoro”, com direito àquela cerimônia de descerramento de placa. O erro de português foi o mínimo diante da cena ridícula e constrangedora. Uma “obra” feita com alguns canos e conexões recebendo holofotes e discursos politiqueiros. Nada contra a causa animal nem contra qualquer iniciativa de ajuda, mas transformar isso em mise-en-scène é algo até difícil de descrever, porque ridículo é pouco.
Ao responder à repercussão, o senador afirmou que a iniciativa foi de cunho pessoal, com investimento privado. Porém, muitas perguntas precisam de resposta, se realmente não se trata de obra pública: por que havia o nome do Governo do Estado? Por que constava o nome do senador? Por que o governador estava presente, juntamente com outras autoridades? Por que a solenidade foi idêntica às entregas de obras públicas? Ainda assim, ele preferiu desqualificar quem reportou e comentou a cena patética que parecia inacreditável, mas que, para nossa vergonha, era real.
Esse tipo de político pode até não estar em extinção, mas, graças às redes sociais, os eleitores dispostos a mantê-los no poder estão cada vez mais escassos.
Na mesma semana desse episódio, o povo do Amapá assiste à Estação Primeira de Mangueira desfilar na Marquês de Sapucaí após receber 10 milhões de reais do nosso suado dinheiro. Se isso não é zombar da cara do cidadão amapaense, eu não sei o que é.
Assistir a uma entrega que mais parece cena de comédia, que não deve ter custado nem duzentos reais, mas que foi festejada pelos entes públicos como grande iniciativa em memória do “Orelha”, e, ao mesmo tempo, assistir ao trem da alegria no Rio de Janeiro pago com nosso dinheiro, como se não faltasse nada no estado, como se houvesse sobra de recursos e como se não fosse importante fomentar o carnaval do próprio Amapá, mas sim o de outro estado, onde verbas não faltam, são duas cenas e dois fatos reais que representam o que há de pior na política amapaense.
É uma completa falta de amor pela própria terra e uma subestimação da inteligência do próprio povo. A população não suporta mais ser feita de otária e não aguenta mais discursos sem resultados, nos quais os interesses da população ficam de lado enquanto prevalecem os interesses das alianças políticas. O marketing, que antes conseguia maquiar tudo, já não esconde mais nada: os personagens estão completamente nus diante da sociedade.
Seguimos vivendo esses vexames, chorando, sorrindo, assistindo ou sambando. Mas um dia essa vergonha vai acabar, e esse capítulo da história vai findar. O povo e os pets receberão o melhor, e não seremos apenas enredo de samba no Rio. Seremos protagonistas de uma nova melodia, gerada e desenvolvida por quem realmente ama este lugar e quer vê-lo prosperar para todos que vivem aqui, para os que virão e para os que voltarão a morar aqui, quando a era dos “comedoros” e dos investimentos fora do estado ficar no passado remoto, dando lugar ao sentimento de pertencimento e de merecimento pelo melhor que a natureza já nos deu e que maus gestores sempre nos impediram de acessar.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
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