
Quem tem medo de encarar as urnas com contagem pública de votos? Quem quer tirar o oponente no tapetão?
Faltando pouco mais de dois meses para as eleições, o Brasil vive um momento de profunda tensão política e institucional. Em vez de concentrar o debate em propostas para o país, cresce a percepção de que a disputa eleitoral está sendo travada também fora das urnas. Para muitos brasileiros, há um movimento para retirar do cenário político candidatos que demonstram amplo apoio popular, substituindo a decisão do eleitor por decisões tomadas em outras esferas de poder.
Essa percepção alimenta um paradoxo: aqueles rotulados como "golpistas" defendem que a população escolha seus representantes pelo voto, enquanto aqueles que se apresentam como guardiões da democracia são acusados de recorrer ao chamado "tapetão" para impedir adversários de disputar eleições. Independentemente da posição política de cada cidadão, trata-se de um debate que merece atenção, pois democracia pressupõe que a vontade popular seja respeitada.
Um exemplo recente foi a controvérsia envolvendo o uso de inteligência artificial durante a convenção do PL, realizada em 25 de julho, para homologar a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. O que era apenas uma peça publicitária exibida em um evento político, passou a ser tratado como possível infração eleitoral. Esse episódio pode indicar o nível de rigor que será adotado ao longo da campanha para prejudicar apenas um lado.
Esse ambiente gera insegurança e amplia a sensação de que as regras do jogo podem variar conforme o lado político envolvido. Quando decisões institucionais são percebidas como seletivas, inevitavelmente cresce a desconfiança de parte da população em relação à imparcialidade das instituições.
Ao mesmo tempo, o Brasil enfrenta um cenário econômico preocupante. Escândalos de corrupção, crises fiscais, insegurança jurídica e aumento da carga tributária alimentam o receio de empresários e investidores. O ambiente está cada vez menos favorável para produzir, investir e gerar empregos.
Há também críticas ao tamanho do Estado e ao modelo econômico adotado. O crescimento permanente da máquina pública, aliado ao aumento da tributação, penaliza quem produz riqueza e compromete a competitividade do país. O receio é que empresas reduzam investimentos ou transfiram suas operações para outros mercados, diminuindo a oferta de empregos e afetando diretamente a arrecadação pública, fato que já está acontecendo e pode se intensificare apontar para uma crise sem precedentes que não será passageira.
Embora o Brasil possua um enorme potencial econômico e abundantes recursos naturais, muitos questionam se essas riquezas estão sendo administradas de forma estratégica. Também há preocupação com a crescente aproximação do governo brasileiro com regimes autoritários e com a influência de países como a China em áreas consideradas sensíveis para a soberania nacional.
No campo internacional, as escolhas diplomáticas do governo Lula aproximam o Brasil de governos que restringem liberdades fundamentais e afastam o país de democracias consolidadas.
Internamente, o clima de polarização parece ter atingido um nível inédito. Com uma estratégia antiga de dividir para dominar, famílias foram divididas, amizades se romperam e o debate público tornou-se cada vez mais agressivo. O confronto político ultrapassou as eleições e passou a fazer parte da vida cotidiana dos brasileiros.
Nesse contexto, muitos temem que a disputa eleitoral deixe de ser decidida exclusivamente pelo voto popular. Quando cresce a percepção de que candidaturas podem ser inviabilizadas antes da manifestação das urnas, instala-se uma crise de confiança que atinge o próprio sistema democrático.
A liberdade de expressão também ocupa o centro desse debate. Há um risco real de ameaça à livre circulação de ideias e opiniões com as insistentes tentativas de regular as redes sociais e criminalizar quem se expressa de forma contrária ao que o governo deseja.
Independentemente da posição política de cada eleitor, uma democracia saudável exige instituições fortes, eleições transparentes, respeito ao devido processo legal e confiança pública. Quando qualquer desses pilares é colocado em dúvida, todos perdem.
Nos próximos meses, o Brasil decidirá mais do que nomes para ocupar cargos públicos. Estará decidindo também qual modelo de democracia deseja fortalecer. A confiança no processo eleitoral depende não apenas da segurança do sistema de votação, mas também da percepção de que todos os candidatos disputam em condições justas, dentro das mesmas regras e com igualdade de tratamento perante a lei.
Em uma democracia, o voto pertence ao cidadão. As instituições existem para garantir que essa vontade seja respeitada, jamais para substituí-la. É justamente por isso que o debate sobre transparência eleitoral, liberdade política e confiança nas instituições continuará sendo um dos temas centrais desta eleição.
Independentemente de quem vença, a legitimidade do resultado depende da convicção coletiva de que foi a população — e não interesses externos ao processo eleitoral — quem decidiu os rumos do país. Esse talvez seja o maior desafio da democracia brasileira: preservar a confiança do eleitor nas regras do jogo e assegurar que o voto continue sendo o instrumento legítimo de escolha dos governantes.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
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