
Uma nação sem limites caminha para a morte. Genocídio não começa com armas, começa com omissão.
Ontem conversei com um amigo que faz cobertura policial no Amapá e ele me disse: “estão matando as nossas mulheres”, referindo-se a um feminicídio ocorrido no primeiro dia do ano, em Santana, AP. Confesso que não tenho estômago para o jornalismo policial. Mas, para falar daquilo que eu tenho estômago — o jornalismo político —, preciso fazer uma analogia com esse crime bárbaro e cada vez mais comum, apesar de tantas campanhas, datas simbólicas e leis mais duras.
Longe de mim defender o feminicida, que para mim é simplesmente um assassino. Esse termo criado para dar a impressão de que a lei trata a mulher de forma diferenciada não passa de mais uma firula ideológica, incapaz de diminuir a morte de mulheres pelas mãos de seus parceiros. Pelo contrário: a realidade mostra que os números aumentam, assim como as manchetes politicamente corretas de “chega de feminicídio”, como se palavras mágicas fossem capazes de conter criminosos ou como se as vítimas obedecessem automaticamente ao desejo coletivo de quem tem preguiça de pensar nas complexidades que envolvem esses casos.
Mas vamos usar o termo da moda. O feminicídio, em geral, não começa no último ato; começa nos primeiros contatos. Todo relacionamento abusivo dá sinais. Não estou aqui tentando transferir a culpa do criminoso para a vítima, mas alertando que muitos desses crimes poderiam ter sido evitados se limites tivessem sido impostos no momento certo — ou se o relacionamento sequer tivesse começado com alguém potencialmente perigoso.
Conversando com uma delegada sobre isso, ouvi que essas questões precisam ser tratadas por psicólogos e fogem ao alcance da investigação, do julgamento e da prisão. Ou seja, a Justiça e os agentes públicos não conseguem impedir aquilo que, muitas vezes, apenas aquela mulher poderia ter evitado. E ela não o faz por razões emocionais, psicológicas e, em muitos casos, por dependência financeira.
A passividade diante da agressividade, a ausência de limites, a falta de providências enquanto ainda há tempo, a carência de amor próprio e a ausência de instinto de sobrevivência antes do ápice da violência acabam colaborando para o desfecho fatal. Reitero: nada disso justifica as ações de quem comete o crime. Mas e daí? O criminoso não se importa com leis nem com o que pensamos dele. Ele não volta para a caixinha — nem antes, nem depois do crime. Ele segue fazendo vítimas. A lei não tem sido capaz de detê-lo. Portanto, é imprescindível que potenciais vítimas saibam se afastar desses indivíduos antes de serem eliminadas.
Mas não é sobre feminicídio que quero falar. É sobre genocídio.
E não é sobre Bolsonaro. Ele está muito longe de ser genocida, e qualquer pessoa que busque o significado do termo saberá disso rapidamente. Pelo contrário, ele literalmente deu a vida para tentar salvar uma nação. Como de costume, quem o acusa foi exatamente quem praticou aquilo de que o acusa. Não vou retomar os episódios da pandemia. Quero olhar para o Brasil enquanto nação e para os golpes fatais que vem sofrendo nos últimos anos — golpes que vêm de dentro.
No passado, o genocídio ocorria de uma nação contra outra. No nosso caso, ele vem de quem é pago para proteger. É como um aborto em que a mãe decide matar aquele a quem deveria sustentar e fazer nascer. O Estado brasileiro está abortando várias gerações, e não sabemos quando isso terá fim — ou sequer se terá.
Assim como no feminicídio, não quero parecer que estou retirando a culpa dos algozes para colocá-la nas vítimas. Mas é inútil repetir o óbvio para quem, em vez de garantir o cumprimento das leis, é o primeiro a descumpri-las. De que adianta gritar “Fora Moraes, fora Alcolumbre, fora Motta, fora Toffoli, fora Gilmar, fora Lula”? Isso é tão ineficaz quanto dizer “chega de feminicídio” depois que o crime já aconteceu. É um desabafo que não muda nada e não impede novas tragédias.
A resposta não vem por mágica, nem por repetições ou hashtags. Ela vem da mudança de postura das vítimas. Uma nação morre quando seu povo não tem amor próprio, quando não assume responsabilidades, quando não impõe limites, quando não luta por seus direitos, quando não exige o cumprimento das leis e quando normaliza um relacionamento tóxico de opressão do Estado — poderes que deveriam servir ao povo — contra o próprio povo, que sustenta esse Estado e deveria ser seu senhor.
Onde o povo errou? Quando acreditou em mentiras, em ilusões, em ganho fácil, em dinheiro sem trabalho, no sucesso da corrupção. Muitos que não se curvaram se acomodaram assistindo de camarote; outros cobraram atitude de terceiros enquanto permaneciam omissos quando era necessário agir. O povo não acompanhou política: apenas criticou, fez memes, piadas, disse que todos eram iguais e se preparou para o pior — e o pior veio.
Os poucos que se posicionaram, que foram às ruas lutar até por quem os odiava, foram ridicularizados. Após a armação do 8 de janeiro, verdadeiros guerreiros foram jogados na prisão sem cumprimento das leis, sem direito à ampla defesa, à individualização da pena, sem direitos básicos que os direitos humanos garantem até ao pior criminoso. Ali começou o genocídio imposto pelo Judiciário sobre a nação, com o aval dos outros poderes e a ajuda incondicional da imprensa.
Ali, a “mulher-nação” foi emudecida, fragilizada, sequestrada, colocada em cativeiro. A mensagem foi clara: qualquer reação do povo passou a ser tratada como golpismo ou terrorismo, enquanto qualquer abuso dos poderes foi legitimado sob a narrativa de “salvar a democracia”. Foi a legalização do genocídio, da destruição da nação por meio do empobrecimento das tais "instituições democráticas", da perseguição, da prisão, do controle e da censura. Uma carta branca para aberrações jurídicas, arbitrariedades e violações dos direitos humanos — sempre com alguém da imprensa para assinar esses crimes e dizer: “entenda como isso é bom”.
O povo ficou acuado. Parlamentares foram silenciados. O medo tomou conta da relação entre Estado e Nação. O Estado avançou sobre o povo sem dó nem piedade, e qualquer tentativa de denunciar ao mundo o que acontece aqui passou a ser tratada como traição.
Como no feminicídio, aqui também só quem pode virar o jogo é o povo — as vítimas do regime. O regime não vai frear; vai acelerar, porque é a única forma de manter o controle. Não espere recuo de quem não respeita nem as leis que diz representar. A nação está nas mãos de uma ORCRIM poderosa, mas nenhuma ORCRIM é mais forte do que uma nação inteira unida em uma única direção.
Nessa relação abusiva, deixamos os abusadores irem longe demais. Agora, não há saída sem dor, sem trauma e sem perdas difíceis de mensurar. Ou o povo se levanta como um só, ou poucos homens armados e ricos destruirão uma nação inteira. Ou teremos gerações cativas pela omissão desta geração, ou gerações libertas pelo basta desta geração.
Pior do que está, não fica. Ou destruímos quem nos destrói, ou seremos fulminados. O Brasil se tornará terra arrasada, e nossos descendentes, escravos de outras nações. O Senhor dos Exércitos ensinou como agir nas batalhas. A aliança com os amalequitas custou muitas vidas ao povo de Israel. Normalizar o que acontece hoje no Brasil é assinar o atestado de óbito da nação.
Nessa relação tóxica entre Estado e povo, um precisa tombar para que o outro sobreviva. Ou o povo, ou o Estado. Quem é mais importante para você? De quem você terá pena? Quem você vai proteger: o opressor ou o oprimido? Os que saqueiam os cofres públicos ou os que trabalham e produzem riqueza? Os que se tornaram a lei e ignoraram a Constituição ou os que cumprem seus deveres?
Eu não sei como nem quando. Não tenho respostas fáceis. Mas escrevo para dizer, em alto e bom som, que se o povo não reagir em bloco contra esses abusos, o genocídio continuará, e as próximas gerações estarão condenadas e sequestradas por um Estado ditador. Que isso não aconteça por minha omissão. Que sejamos dignos da liberdade e conscientes de que somos uma geração de rompimento com um modelo fracassado — e que será preciso muita coragem para construir um novo modelo que devolva vida à nação brasileira.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
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