
A negação da realidade e a crença em narrativas podem destruir uma pessoa e um país. A decisão é sua!
Durante a pandemia, uma das palavras mais repetidas no debate público foi "negacionismo". O termo passou a identificar aqueles que questionavam a gravidade da Covid-19, os lockdowns, a obrigatoriedade da vacinação e diversas medidas adotadas por governos e autoridades sanitárias. Entre eles estava o então presidente Jair Bolsonaro, transformado por seus críticos no principal símbolo dessa postura.
Naquele momento, qualquer contestação ao pensamento predominante era rapidamente associada à irresponsabilidade ou ao desprezo pela vida. O debate perdeu espaço para a polarização. Em vez da dúvida científica — elemento essencial para o avanço do conhecimento — prevaleceu, muitas vezes, a ideia de que determinados temas simplesmente não poderiam ser questionados.
Com o passar dos anos, documentos divulgados, investigações, depoimentos e discussões envolvendo autoridades da área da saúde reacenderam o debate sobre decisões tomadas naquele período. Para quem sempre criticou as restrições impostas, esses acontecimentos reforçam a convicção de que parte das medidas adotadas produziu consequências econômicas, sociais e psicológicas profundas, cujos efeitos ainda são sentidos.
Na visão desses críticos, houve pouco espaço para o contraditório. Médicos que defendiam estratégias diferentes foram desacreditados, pesquisadores perderam voz e cidadãos passaram a ser rotulados apenas por fazerem perguntas ou discordarem das políticas oficiais. Para eles, o maior erro não foi o questionamento, mas a tentativa de impedir o próprio debate.
Independentemente da posição de cada um sobre a pandemia, uma lição parece inevitável: a ciência evolui justamente porque admite revisões, confronta hipóteses e corrige erros. Quando qualquer divergência é tratada como heresia, perde-se um dos fundamentos da própria ciência.
Mas existe um outro negacionismo que, na minha avaliação, representa um risco ainda maior para o Brasil: o negacionismo político.
Se durante a pandemia muitos rejeitaram versões oficiais por considerá-las equivocadas, hoje parte da sociedade, em sentido oposto, ignora episódios históricos amplamente conhecidos da vida política nacional. Escândalos como o Mensalão e o Petrolão permanecem presentes na memória coletiva e continuam influenciando a forma como muitos brasileiros avaliam o atual governo.
Minimizar esses acontecimentos ou tratá-los como irrelevantes significa fechar os olhos para problemas estruturais da administração pública. Soma-se a isso os novos escândalos como o rombo do INSS e o Banco Master, ambos com o envolvimento do mesmo governo, a percepção de deterioração econômica, aumento do custo de vida, insegurança, endividamento das famílias e outras dificuldades enfrentadas diariamente pela população.
As posições internacionais adotadas por Lula e sua relação com regimes autoritários são elementos que desenham um cenário preocupante para o futuro institucional e econômico do país.
A história demonstra que sociedades podem errar tanto ao rejeitar evidências quanto ao ignorá-las. O negacionismo não pertence exclusivamente à ciência nem à política; ele surge sempre que convicções ideológicas passam a falar mais alto do que a disposição de confrontar fatos, rever posições e admitir erros.
Na pandemia, o debate girava em torno da saúde pública. Hoje, o centro da discussão é o rumo do país. Em ambos os casos, a consequência de negar a realidade — seja ela qual for — pode ser extremamente elevada.
A democracia depende do confronto de ideias, da liberdade para discordar e da responsabilidade de avaliar criticamente governantes, instituições e narrativas. Quando qualquer lado abandona essa disposição, abre-se espaço para decisões baseadas mais em paixão do que em razão. E, quando isso acontece, quem paga a conta é toda a sociedade.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
Colabore e anuncie onde você encontra conteúdo de valor
