
As tentativas de tirar o Dr. Furlan da disputa foram muitas, mas o TRE/AP garantiu que a decisão será no voto.
Depois de inúmeras tentativas de tornar o Dr. Furlan inelegível, a última delas foi sepultada no dia 20 de agosto, quando o Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE/AP) deferiu o registro de sua candidatura ao Governo do Amapá.
Falar sobre o malabarismo político e jurídico que fizeram para que esse dia não chegasse a existir no calendário daria um livro. Desde as primeiras pesquisas que apontaram Dr. Furlan como favorito — algumas delas indicando vantagem suficiente para uma vitória ainda no primeiro turno —, uma frase passou a ser repetida nos quatro cantos do Amapá: “O grupo do atraso não vai deixar Dr. Furlan ganhar. Vão prendê-lo. Vão dar um jeito de torná-lo inelegível. Vão tentar ganhar no tapetão.”
Infelizmente, não se tratava apenas de especulação política.
Algumas dessas disputas chegaram ao campo criminal, como no episódio envolvendo a suposta adulteração da data de protocolo de um pedido de cassação da chapa Furlan e Mário Neto na Câmara de Vereadores de Macapá. Soma-se a isso o afastamento dos dois do comando da Prefeitura de Macapá por decisão monocrática de um ministro do Supremo Tribunal Federal, medida que provocou intenso debate político e jurídico no estado e que até hoje, é responsável por um caos administrativo sem precedentes.
O que se desenhou, portanto, foi um cenário de enorme desigualdade de forças: de um lado, um grupo com forte estrutura política e acesso às máquinas estadual e federal; de outro, um candidato que aposta sua força na popularidade, na presença nas ruas e na relação direta com o eleitor.
E é justamente aí que está o ponto central desta eleição.
As ruas e as redes sociais estão dando um recado cada vez mais claro: tapetão, não!
Há uma insatisfação que ultrapassa a discussão sobre obras não entregues, problemas administrativos, denúncias e decisões políticas. Existe também um sentimento de rejeição a uma forma de fazer política que, na percepção de parte da população, se prolonga há décadas sem conseguir transformar de maneira suficiente a vida de quem mais precisa.
Durante anos, muitas famílias deixaram o Amapá em busca de oportunidades que não encontraram aqui. Jovens partiram. Trabalhadores foram embora. Empreendedores desistiram. E uma parcela da população passou a acreditar que prosperar no próprio estado era quase impossível.
É contra esse sentimento de estagnação que o eleitor parece querer se posicionar.
E é por isso que o dia 4 de outubro não será apenas uma data eleitoral. Será o momento em que cada cidadão poderá dizer, diante da urna, que caminho deseja para o Amapá.
Dr. Furlan e seu grupo, ao contrário do que muitos talvez esperassem, não demonstraram desânimo diante das adversidades. A campanha ganhou ainda mais disposição e foco. A estratégia tem sido ocupar as ruas, ouvir as pessoas, apresentar propostas e caminhar ao lado dos candidatos que integram seu grupo político.
Mais do que uma candidatura, há uma narrativa sendo construída: a de que é possível fazer política a partir da escuta, transformar demandas da população em propostas e conquistar votos pelo trabalho, pela presença e pela confiança.
A questão agora é saber se essa força será suficiente para superar estruturas políticas tradicionais.
Porque, se depender apenas da máquina, a disputa pode parecer desigual.
Mas eleição não é patrimônio de governo, partido ou grupo político. Eleição pertence ao eleitor.
E é justamente por isso que a expressão “sem máquina e com o povo” ganhou tanta força.
Se o eleitor entender que chegou a hora de mudar, nenhuma estrutura será maior do que a vontade popular.
E aqui há uma questão que precisa ser dita com todas as letras: emprego condicionado a voto não é democracia. Emprego é direito. Não é presente, recompensa, favor ou pagamento por apoio político.
O cidadão não deveria precisar escolher entre a própria consciência e a sobrevivência da família.
A decisão do TRE/AP, portanto, representa muito mais do que o deferimento de um registro de candidatura. Representa, neste momento, a preservação do direito de o eleitor escolher entre as opções que estarão nas urnas.
Porque, em uma democracia, quem decide o destino de um governo é o povo — e o lugar dessa decisão é a urna.
Se alguém precisava de sinais, este foi um dos mais fortes.
Haverá sinais quando aqueles que dizem ter poder descobrirem que não podem tudo.
Haverá sinais quando um povo historicamente ignorado decidir que não aceitará mais ser tratado como massa de manobra.
Haverá sinais quando alguém estiver disposto a abrir mão de vantagens pessoais porque acredita que o desenvolvimento precisa alcançar a todos.
E haverá sinais, sobretudo, quando a luta para que eu me dê bem for substituída pela luta para que todos possam se dar bem.
Talvez seja esse o verdadeiro significado desta eleição.
De um lado, a velha política, com suas estruturas, seus interesses e sua capacidade de influência.
Do outro, um eleitor que começa a perceber que possui nas mãos a única ferramenta que nenhum grupo político consegue controlar completamente: o voto.
O TRE/AP deu o recado. Agora, a palavra está com o povo.
Sem tapetão. Sem atalhos. Sem medo.
Agora é nas urnas!
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
