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 dois pesos

Enquanto em Brasilia não pode investigar, em Macapá se investiga e tanta desgastar oponentes politicos, em ano eleitoral.

Na última terça-feira, dia 02, o presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (UB), rebateu as cobranças sobre a abertura de uma CPMI do Banco Master alegando que os congressistas querem usar a comissão como “palanque eleitoral”. Acontece que o caso Master já é considerado o maior escândalo financeiro do país e parece que sequer começou a ser totalmente desvendado.

Outra certeza é que há envolvimento direto de pelo menos dois ministros do STF, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, além de parlamentares, como é o caso do próprio Alcolumbre, cujo indicado e aliado, Jocildo Lemos, colocou cerca de R$ 400 milhões da AMPREV no banco de Daniel Vorcaro. Há também o envolvimento do próprio governo Lula, de ministros e de figuras históricas da política brasileira, como Michel Temer. E não para por aí. Até mesmo o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, apareceram em encontros com o banqueiro.

Diante de tantas evidências envolvendo várias esferas de poder e representantes de diferentes instituições, é plausível que grande parte do Congresso, especialmente os que não estão envolvidos, exija a abertura de uma investigação naquela Casa, ainda que existam apurações em outras instâncias. Uma coisa não anula a outra, muito menos substitui. Como representantes do povo, senadores e deputados federais são naturalmente cobrados. Lamenta-se que estejamos em ano eleitoral, mas os fatos precisam ser esclarecidos — principalmente em ano eleitoral.

O problema é que o argumento usado por Alcolumbre para rebater quem cobra a abertura da CPMI do Master não é aplicado pelo grupo político que ele lidera no Amapá. Pelo contrário. Aqui no estado, especialmente em Macapá, as investigações para tentar desgastar a imagem do ex-prefeito Dr. Furlan — principal oponente político de Alcolumbre e líder nas pesquisas para o Governo do Estado — continuam a todo vapor.

E, diferentemente do “escândalo do Master”, os motivos apresentados não se sustentam. Não se trata de crimes comprovados, mas sim de investigações em andamento e denúncias que possuem evidente cunho político.

A situação é tão esdrúxula que um áudio vazado de uma ligação entre Pedro Dalua — à época presidente da Câmara de Vereadores de Macapá e aliado de Davi Alcolumbre — revela claramente a estratégia. Pelo contexto, a conversa teria ocorrido em meados de julho de 2025. No áudio, Dalua afirma que estava preparando uma primeira Comissão Processante.

Veja um dos trechos:

“Eu tô preparando na próxima semana, sem ser essa, na outra já, a primeira CP, a comissão processante. O nosso governador disse que é pra eu atacar na MacapáPrev, que é onde o negócio tá pegando. Eu quero atacar em duas: eu quero atacar na MacapáPrev e a CTMac, porque eu quero que, enquanto o nosso governador estiver lá na Expofeira inaugurando a Expofeira, o filho da puta do prefeito Furlan esteja preocupado com duas CPI lá na Câmara Municipal de Macapá. Começou a guerra. O que o senhor acha? Então pronto, deixe comigo.”

Ou seja, o uso de comissões processantes para desgastar adversários políticos no Amapá faz parte de um plano, como ficou evidente nessa conversa. Um plano envolvendo Alcolumbre, o governador Clécio Luís e o então presidente da Câmara, Pedro Dalua.

E o tempo mostrou que o plano foi executado.

No dia 04 de março de 2026, uma decisão monocrática do ministro Flávio Dino afastou Dr. Furlan e o vice-prefeito Mário Neto. E adivinha quem assumiu a Prefeitura? Exatamente o aliado de Alcolumbre que, meses antes, planejava as comissões processantes.

Há exatos três meses, ele conduz a gestão municipal acumulando polêmicas e denúncias. Representações no Ministério Público não param de surgir. Mas não bastou afastar os eleitos e promover uma demissão em massa, gerando caos administrativo e transtornos nos serviços públicos.

A Prefeitura virou mais um espaço para acomodar centenas de contratos administrativos de aliados em pleno ano eleitoral, enquanto a Câmara passou a atuar para avançar nas comissões processantes.

Dr. Furlan renunciou ao mandato e anunciou sua pré-candidatura ao Governo do Estado. Já Mário Neto, mesmo afastado, passou a enfrentar uma comissão processante cujo objetivo seria claramente cassar o seu mandato. A própria comissão pediu arquivamento, mas, em plenário, foi dado prosseguimento ao processo. Tudo exatamente como havia sido tratado no áudio vazado.

A meta, portanto, parece ser tomar o poder — o que é diferente de vencer eleições — e os instrumentos das CPs têm sido utilizados para isso. As alegações vão desde cobranças direcionadas a Mário Neto por fatos ligados a uma gestão anterior ao seu mandato, ainda em 2023 e 2024, até responsabilizações relacionadas à MacapáPrev, uma autarquia cujos recursos sequer passam pelo caixa da Prefeitura.

O afastamento de Mário Neto como vice-prefeito não possui qualquer sustentação legal, sendo visto por muitos como uma decisão claramente política, que ignora a vontade popular de mais de 85% da população que elegeu a chapa em 2024.

Portanto, enquanto Davi Alcolumbre resiste à abertura de uma CPMI em Brasília para investigar o Banco Master — mesmo diante de denúncias amplamente divulgadas nacionalmente —, aqui em seu reduto político, o uso de comissões processantes sem fundamentos sólidos foi praticamente confessado em áudio. O objetivo é claramente político e eleitoreiro.

Não há qualquer intenção real de “passar Macapá a limpo”, até porque o Amapá inteiro possui problemas muito mais graves para serem investigados dentro do próprio governo aliado dele. O resultado disso é que, no Amapá, essa estratégia não tem produzido mais votos. Pelo contrário: eles parecem cada vez mais escassos. E, em Brasília, cada resistência em investigar o que precisa ser investigado também gera desgaste e perda de popularidade. Ou seja, aquilo que ele provoca aqui gera desgaste eleitoral. E aquilo que ele evita lá também.No final, os dois pesos e as duas medidas apenas aprofundam a revolta da população — tanto daqui quanto de lá.

Adriana Garcia 

Jornalista na Amazônia

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