
O remascente precisa lutar para que o Brasil não se torne escravo de potências, já que não se preparou para ser uma.
A pergunta que atravessa gerações e nunca foi respondida
Essa música de 1987, lançada há quase 40 anos, continua atual. Gerações passam sem saber sequer que país é esse — sem conseguir descrever o lugar onde nasceram e onde vivem, sem projeto, sem perspectiva. A sensação é de que, se chegamos até aqui assim, então podemos continuar desse jeito. Mas todos os problemas se cronificaram, e a situação tornou-se tão insustentável que esta geração viverá uma mudança drástica. Muitos sequer estão preparados ou sabem o que ela significa.
A normalização da corrupção e o colapso moral do país
Vivemos permanentemente ocupados com distrações inúteis ou tensos diante de roubos oficiais e não oficiais. Desesperançosos em uma terra cuja lei é de fachada e cujas decisões judiciais parecem feitas por encomenda. Escândalos já não escandalizam mais; a corrupção virou virtude, e lutar contra ela passou a ser chamado de golpe.
Um Brasil promissor que aprendeu a se desprezar
Sempre soubemos que o Brasil era promissor, mesmo sem compreender em profundidade o que isso significava. Acostumamo-nos a nos maldizer, a repetir que “não tem jeito”. Nunca encontramos um culpado claro: apontamos de forma genérica e nos desculpamos, como se nada tivéssemos a ver com isso.
A fuga da autorresponsabilidade e a infantilização da sociedade
Talvez muitos realmente não consigam perceber a própria autorresponsabilidade. Nunca tenham feito sequer uma análise superficial da realidade à sua volta. Seguem acreditando em frases de efeito cujo único resultado é nos conduzir a equívocos inúteis. Falta tempo — e muitas vezes disposição — para discutir os problemas da nação.
Quando o debate público vira disputa de pessoas, não de projetos
A imaturidade e a ausência de consciência cidadã e política levam multidões a discutir pessoas, não projetos. Há os que se cansaram de discutir e os que nunca entraram no debate.
O mito do salvador e a anulação dos heróis nacionais
E há aqueles que, pelas experiências, vivências e busca por conhecimento além da superfície — além do que lhes é permitido saber — insistem em dialogar, discutir, planejar, pensar, refletir. A mentalidade infantil de que alguém virá nos salvar, sem custo algum, revela covardia e falta de patriotismo. Talvez tenham anulado nossos heróis, e nossa memória já não consiga resgatar personagens inspiradores capazes de indicar um caminho de persistência.
O dinheiro como centro do poder e a morte da representatividade
A moeda que move tudo é o dinheiro. Não são os anseios coletivos, nem a justiça, a lei, a representatividade ou a verdade. E, sem lei, sem justiça e sem verdade, adeus à representatividade.
Eleições compradas e uma justiça refém do sistema
Quem manda é quem acumula dinheiro — não mais o fruto do trabalho honesto passado de pai para filho, mas o dinheiro fácil da corrupção, dos jogos de azar, do tráfico de drogas e do tráfico humano. O dinheiro dos bancos falsos, do assalto aos aposentados, dos impostos desviados.
Quem tenta representar o povo é perseguido e eliminado
Como falar em representatividade se, para ganhar uma eleição, é preciso ter muito dinheiro? Como esperar justiça se juízes são colocados lá por quem vence eleições financiadas por muito dinheiro? Os poucos que chegam ao poder pelo voto sincero do cidadão são perseguidos, presos, exilados ou arrancados pela força de um sistema que não tolera quem ousa representar os interesses da população.
Um país rico tratado como mendigo no cenário internacional
O Brasil, disputado e depenado por China, Rússia e Estados Unidos, segue sua sina de mendigo mesmo sendo rico, embalado por uma narrativa eterna de vitimismo.
Inimigos externos só prosperam porque os internos abriram as portas
Mas como avançar se os maiores inimigos estão dentro, negociando o futuro com os de fora em troca de benefícios pessoais? Que país respeitará o Brasil ao se deparar com políticos, juízes e banqueiros brasileiros que demonstram desprezo pela própria pátria?
Submissão, dependência e a recusa em pensar como nação
Se não pararmos para tomar decisões que sejam, finalmente, para o bem da nação, seremos esmagados e escravizados por países que pensaram no próprio interesse nacional.
A engenharia da ignorância e a escravidão estatal disfarçada
Negaram-nos o conhecimento, negaram-nos oportunidades e nos lançaram numa cegueira conveniente: a ideia de que quanto mais benefícios sociais, mais justo é o país. Assim, justificaram a escravidão estatal.
A criminalização do trabalho e a glorificação do crime
Criminalizaram o trabalho, transformaram o assalto e o dinheiro fácil em virtude. Desestimularam a honestidade e premiaram a bandidagem.
Censura, perseguição e o silêncio conveniente dos “intelectuais”
A irresponsabilidade e a ignorância foram exaltadas por quem deveria denunciá-las. Vieram a censura, a prisão injusta e o aplauso de artistas beneficiados pela Lei Rouanet e por falsos intelectuais formados por uma indústria de mediocridade.
O caminho dos corajosos e o preço de não se omitir
O caminho à frente é longo e espinhoso. Nele, só entram os corajosos — aqueles que não se omitem diante de uma missão, que não fogem de um desafio.
Quem ainda resiste: os que não se dobraram ao sistema
São pessoas de todas as classes, raças, sexos e profissões. Remanescentes que não se dobraram a Mamon e que desejam um Brasil que dê certo para todos.
Entre a resignação e a reação: o futuro que ainda pode ser evitado
Não me iludo achando que o Brasil se tornará uma grande potência. Mas acredito que ainda podemos impedir que se torne um país escravo.
Para que nossos filhos não repitam a mesma pergunta
Quero que meus netos saibam dizer em que país nasceram — e que se orgulhem disso. Que essa pergunta deixe de atravessar gerações como vergonha e passe a ser uma convicção de quem não desiste, de quem sabe onde quer chegar e está disposto a pagar o preço para não entregar o futuro das próximas gerações.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
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