
R Nelson voltou maior — e agora quer comandar a ALAP. O que muda no Legislativo?
Por Adriana Garcia
A política costuma produzir suas próprias respostas. E, no caso de R Nelson, a resposta veio das urnas.
Depois de quatro anos ocupando um espaço de oposição dentro da Assembleia Legislativa do Amapá, o deputado estadual R Nelson (Podemos) está de volta à ALAP. E não voltou apenas para cumprir mais um mandato.
Voltou com 10.286 votos, como o quinto deputado estadual mais votado do Amapá.
Para quem acompanhou sua trajetória, o número representa mais do que uma estatística eleitoral. É o resultado de uma atuação parlamentar que escolheu a fiscalização como uma de suas principais bandeiras.
R Nelson foi um dos parlamentares que mais confrontaram publicamente decisões e ações do governo estadual durante o primeiro mandato. Cobrou explicações, questionou obras, levantou problemas e criou o conhecido selo “Tartaruga Cansada”, usado para chamar atenção para obras que, segundo suas cobranças, avançavam lentamente.
Foi uma estratégia política que o colocou frequentemente no campo do contraditório.
E é justamente aí que está uma das marcas de seu primeiro mandato: R Nelson não passou despercebido.
DE 3.898 PARA 10.286 VOTOS
Em 2022, quando foi eleito deputado estadual pelo PL, R Nelson recebeu 3.898 votos. Quatro anos depois, mudou de partido, ingressou no Podemos e saltou para 10.286 votos. O crescimento é expressivo. Mas talvez a pergunta mais interessante não seja apenas quantos votos ele recebeu.
É por que um eleitor que já havia escolhido R Nelson decidiu ampliar esse apoio em 2026?
A resposta, evidentemente, pertence a cada eleitor. Mas, politicamente, o resultado demonstra que sua atuação conseguiu construir uma base eleitoral maior do que aquela que o levou à Assembleia pela primeira vez. E isso muda o tamanho de R Nelson dentro da ALAP. Ele não chega ao segundo mandato como o mesmo deputado que chegou em 2023. Chega com mais votos, mais experiência e uma posição política diferente.
DO SÍMBOLO DA OPOSIÇÃO À DISPUTA PELA PRESIDÊNCIA
Talvez seja essa a maior mudança. Durante quatro anos, R Nelson ocupou o papel de oposicionista. Agora, o parlamentar pretende disputar a presidência da Assembleia Legislativa. É uma mudança significativa de posição.
Se antes sua principal tarefa era fiscalizar quem estava no poder, agora ele poderá tentar ocupar um dos principais postos de poder dentro do próprio Legislativo. E sua promessa é justamente fazer da presidência da ALAP um instrumento de fortalecimento da Casa.
R Nelson defende que o presidente da Assembleia precisa ouvir situação e oposição, garantir espaço para o contraditório e respeitar as diferentes posições existentes dentro do Parlamento.
Essa é uma proposta que precisará ser demonstrada na prática caso ele consiga chegar ao comando da Casa. Porque presidir uma Assembleia é muito diferente de fazer oposição. Exige capacidade de diálogo, articulação, equilíbrio e disposição para ouvir inclusive aqueles que pensam diferente.
O PODEMOS TAMBÉM SAI MAIOR DAS URNAS
A eleição de R Nelson também precisa ser analisada dentro do crescimento do Podemos no Amapá.
O partido elegeu Rayssa Furlan para o Senado, além de Dra. Erica para a Câmara Federal e dois deputados estaduais: R Nelson e João Mendonça.
João Mendonça recebeu 8.736 votos e foi eleito para a ALAP. Ou seja, o Podemos não saiu das urnas apenas com uma representação individual. Saiu com uma bancada estadual e uma representação no Senado e na Câmara Federal.
É uma nova configuração política que certamente terá reflexos na relação entre os diferentes grupos que compõem a política amapaense.
A AUTONOMIA DA ALAP SERÁ O GRANDE TESTE
E aqui está, talvez, o ponto mais importante para o próximo mandato.
Independentemente de quem ocupe o Palácio do Setentrião, uma Assembleia Legislativa forte precisa exercer sua função constitucional de fiscalizar, legislar e representar a população. Essa discussão não deveria ser partidária. Uma Assembleia não pertence ao governador, ao presidente, aos deputados ou aos partidos. Pertence ao povo.
É justamente por isso que a eventual candidatura de R Nelson à presidência da ALAP ganha relevância. Ele construiu sua carreira recente defendendo fiscalização e independência. Se chegar à presidência, terá a oportunidade de transformar esse discurso em prática institucional. E aí estará seu verdadeiro desafio.
UMA NOVA FASE
R Nelson chega ao segundo mandato com uma história diferente daquela que carregava quando entrou pela primeira vez na ALAP. Entrou em 2023 como um deputado recém-eleito. Sai de 2026 como um dos cinco estaduais mais votados do Amapá e como nome que pretende disputar o comando do Poder Legislativo. O eleitor fez sua parte. Agora caberá ao deputado fazer a dele.
Se conseguir chegar à presidência da Assembleia, R Nelson terá diante de si uma oportunidade — e também uma grande responsabilidade: provar que a independência que defendeu como oposição pode existir também quando se está no comando. Porque fiscalizar é importante. Mas saber ouvir, respeitar o contraditório e garantir que o Legislativo tenha voz própria diante dos demais poderes talvez seja o maior teste de todos.
A nova legislatura ainda nem começou. Mas uma coisa já está definida pelas urnas: R Nelson voltou. E voltou maior.
Agora, o próximo capítulo será decidido dentro da própria Assembleia Legislativa.
