cnews 2506 banner 500x100px
cnews 2506 banner 500x100px

 faz de conta

Entre palácios e tribunais: a verdade que tentaram esconder

A semana foi cheia de emoções. A grande expectativa de quem sofre injustiças e acaba pagando a conta recai sobre a delação de Vorcaro — que não pode ser pela metade, senão não é delação. Mas isso também causou pavor em quem deve, e deve muito. Não apenas dinheiro, mas vê a reputação ilibada que prega sendo colocada à prova, dependendo do que há nas câmeras de Vorcaro, dependendo do que aconteceu em sua mansão. Pode ser que casamentos sejam desfeitos, famílias sejam destruídas — não por uma delação, mas pela conduta de seus “homens acima de qualquer suspeita”.

Mas precisamos reconhecer: a estrutura montada nesta república levaria a isso, mais cedo ou mais tarde. Os últimos presidentes, exceto Bolsonaro, colocaram na Suprema Corte advogados de facções criminosas das mais diversas — do MST ao PCC, passando pelo PT. E por que não dizer advogados de criminosos como Lula? Não era necessário saber jurídico, mas entender de crime e representar seus interesses na mais alta Corte do país. Para serem sabatinados e aprovados, nada melhor do que um Senado, em sua maioria, corrupto e devedor da Justiça. Estava armado o grande circo onde o povo se tornaria o verdadeiro palhaço. Essa engrenagem não poderia ter outro resultado senão este que estamos assistindo.

Claro que também era a Suprema Corte que escolhia quem seria o presidente do Congresso. Quanto mais corrupto, menor, ou nula, a chance de colocar em votação o impeachment de ministros. E essa teia maligna é apelidada de “instituições democráticas”, tratadas como intocáveis, infalíveis e inquestionáveis. Qualquer um que percebesse suas artimanhas e ousasse declará-las em público seria acusado de golpista e de cometer crime contra o Estado Democrático de Direito. Muitos nem sabem o que esse termo significa, mas a narrativa parece convincente o suficiente para prender inocentes sem que se perceba a perseguição.

A grande verdade é que tudo o que está sendo descoberto agora sempre aconteceu, desde a redemocratização. Talvez, no início, de forma discreta. Mas foi ganhando força, criando uma estrutura segura — uma teia de crime onde todos acabaram ficando nas mãos de todos, uma verdadeira máfia. Mas não era na favela nem na periferia: era nos palácios e nos tribunais. Além da ousadia e do avanço — dos milhões que se tornaram bilhões e depois trilhões desviados — surgiu também a internet e as redes sociais. Os escândalos anteriores parecem menores não pelo montante ou pelos crimes cometidos, mas pela forma como a informação chegava antes e como chega hoje.

O susto diante de tantas descobertas e decepções parece maior agora, mas também corremos o risco de tudo se normalizar. Como qualquer crime que antes era considerado bárbaro por ser pontual e hoje se torna comum por sua frequência e pelo fácil acesso às informações, a um clique na tela do celular.

Será que vamos usar o conhecimento que temos para nos acostumar — ou para reagirmos como um só povo e lutar por um Brasil que nunca existiu, mas que merecemos?

A república do faz de conta, onde só pode concorrer quem eles querem, só pode vencer quem eles querem; onde legisladores se tornam artistas a serem reverenciados, quando deveriam ser servidores públicos temporários, respeitando o povo que dizem representar. E os juízes? Está de brincadeira. Para que estudar, se quem nunca passou em concurso pode julgar decisões de quem passou? Ministros do STF são escolhidos por amizade, companheirismo e cumplicidade. Em geral, são os sem pudor que julgam causas defendidas por seus próprios escritórios. Aquilo que está escrito na Constituição também parece ser faz de conta: bonito de se ler, mas longe de ser cumprido.

Faz de conta que temos liberdade. Faz de conta que elegemos. Faz de conta que somos uma democracia. Faz de conta que somos uma república e um país decente. Há até uma imprensa dedicada a fazer com que o faz de conta pareça verdade.

Mas, no meio de todo esse cenário, existe uma grande vantagem: este momento nos proporciona a oportunidade de enxergar. E, se soubermos aproveitá-la, poderemos ser protagonistas na construção de um país de verdade. A cortina se abriu, os bastidores estão expostos, o rei está completamente nu — e a maioria da população já reconhece que viveu uma grande farsa.

A farsa da redemocratização que facilitou a chegada e a permanência de criminosos em todas as instâncias de poder, ao mesmo tempo em que criminaliza aqueles que, ao longo dos anos, tentaram desmascará-la.

Eis que está em nossas mãos, após descobrir a verdade, fazer bom uso dela e tomar as rédeas da nação, para que o país seja resgatado das mãos daqueles que diziam salvá-lo enquanto o destruíam.

A verdade dói. Mas, para um diagnóstico e um tratamento eficaz, ela precisa ser reconhecida. Ainda que estejamos diante do caos, é melhor enxergá-lo do que permitir que continue existindo sem que tenhamos consciência de sua existência.

A verdade nos libertará. Mas, até que esse dia chegue, ela vai doer. Haverá um preço a pagar — e será preciso suportá-lo para atravessar esse processo e alcançar, do outro lado, a esperança de um recomeço.

Não como foi algum dia — mas como deveria ter sido ao longo de 500 anos de história.

O faz de conta talvez seja tão antigo quanto a própria descoberta do Brasil. E é justamente por isso que ainda há esperança: a de que surja um tempo inédito, em que pessoas que não negaram a verdade, mas a utilizaram para diagnosticar e tratar o país, deixem para as próximas gerações um Brasil de verdade.

Adriana Garcia

Jornalista na Amazônia

Colabore e anuncie  onde você enoontra conteúdo de valor.

 qrcode adriana

prefeitura_macapa_2
prefeitura_macapa_3
prefeitura_macapa_3