
Há mais de 30 anos no bairro, o templo será demolido a qualquer momento por decisão judicial.
Nesta semana, o povo evangélico do Amapá presenciou uma situação que muitos consideram incoerente por parte do governo estadual. Ao mesmo tempo em que uma igreja evangélica localizada no bairro Araxá está prestes a ser demolida em decorrência de uma ação judicial movida pelo próprio Estado, o governador divulgou em suas redes sociais o apoio do governo a 205 retiros espirituais e ao tradicional retirão, evento gospel que contará com apresentação do cantor Anderson Freire na próxima quarta-feira.
A igreja, instalada há mais de trinta anos na comunidade, cumpre um papel não apenas espiritual, mas também social na vida de moradores da região. Vídeos gravados por membros da congregação, pedindo a reconsideração da decisão, circularam nas redes e comoveram muitas pessoas. Profissionais da imprensa que estiveram no local relataram o clima de tristeza e emoção ao presenciar o sofrimento da comunidade diante da iminente demolição.

Os membros da igreja evangélica não têm a quem recorrer para evitar a demolição. O Estado acima do cidadão a quem deveria servir.
Grande parte da revolta surge do fato de que, durante o projeto de construção da Orla do Aturiá, a igreja evangélica não foi contemplada para permanecer no local, enquanto a igreja católica da comunidade foi mantida. Moradores e frequentadores da congregação afirmam sentir-se desrespeitados e ignorados, como se a história construída ali ao longo de décadas não tivesse valor para o poder público.
Além disso, diversas famílias já deixaram a área, reclamando que as indenizações oferecidas ficaram abaixo do valor de mercado, dificultando a compra de imóveis na mesma região onde viveram por toda a vida. O caso de uma criança autista, cuja residência também será demolida, ganhou repercussão nas redes sociais. O menino fez um apelo para que seu quarto, construído com sacrifício pela família, não fosse destruído. Mesmo assim, a decisão judicial foi mantida.

Davi cresceu no bairro e seu quarto azul, construído com sacrifício, será demolido junto com sua casa.
Entre os membros da igreja, surgem questionamentos: por que não foi elaborado um projeto que permitisse a permanência do templo? Por que não houve diálogo com a comunidade de fé antes da execução da obra?
Enquanto isso, a propaganda de valorização do público evangélico segue ativa nas redes oficiais do governo, mesmo diante da demolição de um templo que há décadas atende à população. Muitos se perguntam se o apoio a retiros e grandes eventos religiosos realmente representa cuidado com essa parcela da população, quando uma igreja tradicional da comunidade não foi preservada.
Como evangélica, sinto tristeza ao perceber a conivência de muitos com esse tipo de prática política. De um lado, a política entra em algumas igrejas pela porta da frente, com tapete vermelho. De outro, quando convém ao poder público, a fé, a história e a comunidade parecem ser facilmente descartadas, como se décadas de culto e serviço social não tivessem valor.
A dor que fica é a sensação de que faltou diálogo, sensibilidade e respeito com uma comunidade que construiu ali não apenas um templo, mas parte de sua própria história.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
Colabore e anuncie onde você encontra conteúdo de valor

