
Famílias relatam medo após ações de empresário ligado à família Alcolumbre, diz revista Piauí.
Uma reportagem especial publicada pela revista Revista Piauí, assinada pelos jornalistas Allan de Abreu e Camille Lichotti, denuncia uma grave disputa fundiária envolvendo moradores da comunidade Lagoa de Fora, na zona Oeste de Macapá, e o empresário Pierre Alcolumbre, primo do presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Segundo a reportagem, cerca de 60 famílias vivem na comunidade, formada principalmente por pequenos produtores rurais e trabalhadores informais. Muitos moradores adquiriram os terrenos entre os anos 2000 e 2005, pagando valores entre R$ 10 mil e R$ 40 mil a antigos posseiros.
De acordo com a Piauí, a situação se agravou em novembro de 2025, quando uma retroescavadeira teria entrado na comunidade derrubando árvores, destruindo quintais e uma horta comunitária utilizada pelos moradores. A revista afirma que a máquina estaria a serviço de Pierre Alcolumbre, que reivindica parte da área ocupada pela comunidade alegando invasão de sua propriedade.
Os moradores contestam a acusação e afirmam que vêm sofrendo ameaças e intimidações desde então. A reportagem relata que a Defensoria Pública da União ajuizou uma ação de manutenção de posse acusando Pierre Alcolumbre de ameaça, turbação e esbulho possessório. A DPU sustenta que uma eventual retirada das famílias, especialmente durante o período de chuvas amazônicas, representaria violação ao direito fundamental à moradia.
A matéria também descreve denúncias feitas pelos moradores sobre destruição de acessos à comunidade, abertura de valas em estradas utilizadas por estudantes, construção de muros próximos às casas e retirada de estruturas consideradas essenciais pelos residentes.
Segundo a reportagem, uma inspeção judicial realizada em abril constatou a existência de um muro de concreto construído ao lado das residências, bloqueando portas e janelas. Os moradores também relataram medo constante diante da circulação de seguranças particulares e supostas ameaças atribuídas a pessoas ligadas ao empresário.
A Piauí afirma ainda que o caso expõe um antigo impasse fundiário no Amapá, relacionado à transferência histórica de terras da União para o estado. A reportagem detalha documentos, registros cartoriais e ações judiciais envolvendo propriedades da família Alcolumbre, além de citar questionamentos levantados anteriormente pelo Ministério Público Federal sobre registros fundiários na região.
A revista destaca que o processo segue tramitando na Justiça Federal e que decisões recentes mantiveram a proibição de demolição das casas, embora tenham autorizado a continuidade de obras e intervenções em áreas reivindicadas por Pierre Alcolumbre.
Procurados pela reportagem da Piauí, Pierre Alcolumbre e seu sócio, Wilton Teixeira, não teriam respondido aos questionamentos enviados pela revista até o fechamento da matéria.
Já a assessoria do senador Davi Alcolumbre afirmou à revista que ele não possui qualquer participação, envolvimento ou conhecimento sobre os fatos relacionados ao primo, negando ainda qualquer interferência em órgãos públicos citados na reportagem.
Uma reportagem também da Piauí, em abril, com o título ALCOLUMBRE, O INOPRESENTE, chama a atenção para o patrimônio de Pierre que explodiu após a eleição de Alcolumbre como deputado federal, em 2002. Das 19 empresas registradas em nome dele e de seus filhos, 14 foram abertas a partir de 2003, somando capital social de R$ 19 milhões. Entre os bens, estão propriedades rurais que chegam a quase 10 mil hectares, incluindo áreas sobrepostas a assentamento rural do Incra e a um quilombo. Uma parte dessas terras foi adquirida por Pierre com depósitos em dinheiro vivo realizados por uma beneficiária do auxílio emergencial durante a pandemia da Covid.
Já o patrimônio declarado por Alcolumbre apresentou pouca variação ao longo dos anos. Em 2014, o senador informou à Justiça Eleitoral bens de R$ 1,13 milhão, em valores corrigidos. Em 2018, houve uma pequena variação para cima, totalizando R$ 1,16 milhão. No entanto, em 2022, oscilou para baixo, caindo para R$ 1,15 milhão.
De acordo com a revista, sete pessoas ouvidas sob anonimato afirmam que Pierre atuaria, na prática, em nome de Alcolumbre em negócios. Questionado sobre sua relação com o primo, o senador disse que a pergunta lhe atribui “responsabilidade por atos e negócios privados de terceiro, com base em associações especulativas”. Afirmou, ainda que, “responsabilidade não se transfere por vínculo familiar” e concluiu que não lhe cabe “responder por aquisições patrimoniais ou recursos de terceiros”. O senador não respondeu com que frequência usa o escritório de Pierre.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
