
Uma grande reportagem da Piauí descreve quem é Davi Alcolumbre e como ele chegou onde está.
A Revista Piauí publicou uma reportagem de nove páginas cuja primeira palavra para descrever Alcolumbre foi “bonachão”. Fui buscar o significado: alguém naturalmente bom. Será mesmo? Ou, neste caso específico, essa “bondade” tem um preço — e ele é cobrado diariamente de quem lhe deve até a alma? Como uma pessoa “boa” poderia causar tanto mal a uma nação inteira?
A excelente e corajosa matéria, assinada por Camille Lichotti e Allan de Abreu, revelou detalhes da ascendência do parlamentar e de como sua família teria construído fortuna no Amapá por meio de atividades ilegais, segundo relatórios oficiais acessados pelos jornalistas. O texto também descreve características pessoais, seu estilo aparentemente despojado — mas, ao mesmo tempo, perigoso — de fazer política, e conclui abordando os acontecimentos recentes no Amapá e no Brasil envolvendo Alcolumbre.
Com o título “O Onipresente”, a reportagem expõe negócios que só crescem, mesmo sem aparecerem em declarações oficiais de patrimônio e renda. Nesse contexto, seu primo Pierre surge como o responsável por gerir tais interesses. Enquanto está em Brasília, Alcolumbre mantém controle sobre pessoas e estruturas no Amapá. Seria um gênio? Se for, essa “genialidade” parece ter começado cedo — e por meios nada republicanos.
Mesmo vivendo no Amapá há quase três décadas, eu ainda não havia compreendido plenamente o episódio de sua ruptura com José Sarney. Ao chegar ao Senado, derrotando o candidato apoiado por Sarney — figura que tratava o estado como extensão de seu domínio político —, Alcolumbre mostrou força. Mas não apenas isso: indicou que o discípulo poderia superar o mestre. A impressão é de que herdou o estilo político de Sarney, não pela obediência, mas pela traição. Um prodígio que queria ir longe — sem limites quanto aos meios. Será que Alcolumbre pensou: " Por que o Amapá é do Sarney, se pode ser meu?". Pelo menos sua tragetória evidencia esse desejo, essa megalomania.
Essa trajetória o levou à presidência do Congresso, onde se consolidou como peça-chave de um sistema que muitos consideram comprometido. Investigações contra ele permanecem paradas no Supremo Tribunal Federal. Nesse cenário, ninguém confronta ninguém — e o Brasil segue em declínio, marcado por corrupção, fragilidade econômica, denúncias de injustiças e violação grave de direitos humanos.
A reportagem inclui depoimentos anônimos, reflexo do medo de retaliações — algo que, segundo relatos, não é incomum. A assessoria de Alcolumbre negou todas as acusações, desde os dados de relatórios oficiais até os testemunhos. Mas, no Brasil, negar parece suficiente quando se tem apoio nas altas esferas. Luiz Inácio Lula da Silva já enfrentou acusações e retornou à presidência. O segredo? Negar e manter alianças sólidas no topo do Judiciário — algo que Alcolumbre parece dominar com habilidade.
A família Alcolumbre construiu um verdadeiro império no Amapá. E entender sua dimensão é essencial para compreender como decisões políticas impactam um estado com menos de um milhão de habitantes — grande parte dependente de programas sociais —, mas com riquezas naturais cobiçadas internacionalmente. Nesse cenário, “bonachões” são peças valiosas para negociações que deixam lucros aqui e benefícios lá fora.
A reportagem também sugere limitações técnicas do senador em debates complexos. Sua habilidade central estaria na articulação política e na captação de recursos. Ainda assim, a população questiona: para onde vai tanto dinheiro? O estado permanece dependente, preso a contratos e assistencialismo.
Há indícios de um sistema estruturado de favorecimento. Episódios citados incluem o uso de emendas parlamentares associadas a figuras próximas, como Breno Chaves Pinto, ligado a contratos públicos e já flagrado com dinheiro em espécie. Em uma região onde práticas como compra de votos são historicamente denunciadas, tais fatos levantam suspeitas — mas dificilmente avançam.
O senador mantém relações com figuras influentes e já recebeu "empresários" como Vorcaro e Beto Louco. Também é citado o caso de investimentos envolvendo a AMPREV e o banco Master, operacionalizados por aliados como Jocildo Lemos — operações envoltas em questionamentos. Ainda assim, nada avança. Alcolumbre seria “o cara”: aquele que engaveta pedidos de impeachment e, em troca, vê suas próprias investigações paralisadas — assim como as de aliados.
A matéria menciona, por exemplo, o caso do deputado federal Vinicius Gurgel, ex-aliado que mudou de posição e teve processo reativado — um recado claro sobre os riscos de sair da órbita de influência do senador.
O cenário se agrava quando operações da Polícia Federal passam a ser interpretadas como sinais políticos. A reportagem sugere que o controle sobre nomeações em órgãos estratégicos fortalece esse poder. Um exemplo citado é a indicação ao Ministério das Comunicações, seguida do fechamento de uma rádio crítica ao senador. Em outro episódio, Jocildo Lemos teria sido avisado previamente sobre uma operação, conseguindo evitar apreensões.
O problema se intensifica quando aliados alcançam o Judiciário. No Amapá, há praticamente um único opositor relevante: o prefeito Antonio Furlan. Seu “crime”? Vencer as eleições de 2020 contra o grupo de Alcolumbre. Outro? Aplicar recursos em obras, contrariando interesses políticos e melhorando a cidade e a qualidade de vida da população.
Furlan foi afastado por decisão do ministro Flávio Dino em março, em meio a investigações. O episódio gerou instabilidade na gestão municipal e reforçou a percepção de uso político das instituições. Em áudio divulgado pelo portal Metrópoles, Alcolumbre afirma saber ajudar seu grupo — evidenciando uma lógica de poder baseada em reciprocidade e controle.
A tensão aumentou ainda mais quando Rayssa Furlan quase conquistou uma vaga no Senado em 2022. O casal Furlan tornou-se símbolo de resistência local, com forte apoio popular.
A reportagem também aponta articulações contra familiares do prefeito, incluindo um promotor de Justiça. Atualmente, Furlan desponta como pré-candidato ao governo com ampla vantagem, enquanto Rayssa surge como favorita ao Senado. O senador Lucas Barreto aparece como aliado relevante nesse cenário para ocupar a segunda vaga e ser reeleito.
Diante da possível perda de poder — governo estadual e Senado —, a pergunta é inevitável: até onde Alcolumbre pode ir para evitar esse desfecho?
Hoje, ele mantém influência sobre o governo estadual, a Assembleia Legislativa (com 7 dos 8 deputados), prefeituras e câmaras municipais. Na capital, o controle teria sido ampliado após decisões judiciais que favoreceram aliados que por ele são controlados. Um cenário considerado extremo e sem precedentes.
Alcolumbre também é apontado como articulador da cassação de quatro deputados federais para colocar quatro aliados no lugar e controlador de grande parte da imprensa local. Diante disso, o que resta ao povo amapaense? A esperança — talvez até um milagre — de mudança em Brasília.
Se nem senadores, nem a Polícia Federal, nem o Judiciário conseguem enfrentá-lo, é porque esse “bonachão” foi longe demais — e não pretende recuar.
O único que resiste, é Furlan, que aposta na justiça, na democracia e no apoio popular. Rumores sobre possíveis tentativas de prendê-lo e torná-lo inelegível circulam nos bastidores — o que, diante do histórico descrito, não parece impossível.
Muitos, inclusive de forma anônima, reconhecem a coragem da Revista Piauí ao expor esse retrato político do Amapá. Uma figura comparada a Nabucodonosor — símbolo bíblico de poder e soberba. Para quem crê, a história já é conhecida: todo poder tem limite.
O “onipresente” não é onipotente, nem onisciente. E, no fim, apenas diante de Deus se curva um filho de Deus.
P.s.: Leia a reportagem completa na Revista Piauí.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
